Uma bactéria específica e o aminoácido triptofano são fundamentais para o bom funcionamento do sistema imunitário.
As doenças autoimunes caracterizam-se por uma perda de tolerância por parte das células do sistema imunitário, passando estas a atacar tecidos do próprio organismo, confundindo-os com agentes patogénicos. Uma das origens destas doenças pode ter lugar na microbiota e na relação desta com o sistema imunitário.
Existe uma região no intestino delgado fundamental para o sistema imunitário: o tecido linfoide associado ao intestino (GALT). Nesta região, as células do organismo interagem com bactérias e células do sistema imunitário, sendo que essa interação determina se os elementos encontrados no intestino (bactéria ou componentes de alimentos) vão ser tolerados ou se pelo contrário o organismo irá desencadear uma resposta imunitária para atacar esses elementos.
De acordo com um novo estudo (Cervantes-Barragan et al., 2017), as bactérias presentes no GALT poderão ajudar a produzir uma célula do sistema imunitário que permite o bom funcionamento do organismo ao tolerar substâncias inofensivas do ambiente exterior.
Em modelo animal, investigadores observaram que animais sem bactérias não tinham um tipo especial de célula do sistema imunitário: linfócito intraepitielial duplo-positivo (DP IEL). Estas células existem no intestino delgado e normalmente ajudam o organismo a discriminar o que é “self” e o que é “não-self”. Esse processo permite o organismo tolerar substâncias provenientes da alimentação e outras moléculas do exterior, mantendo sob controlo uma eventual resposta imunitária.
Ao colonizarem esses animais com várias bactérias, observaram que uma dessas bactérias, a Lactobacillus reuteri, levou à produção de DP IELs. Outras bactérias não induziram a produção de DP IELs mas aumentaram os efeitos da L. reuteri.
Além disso, os investigadores descobriram que o aminoácido L-triptofano era também necessário para desencadear a produção de DP IELs. Um dos metabolitos resultantes do metabolismo de triptofano pela L. reuteri (ácido lático índole-3) parece ser necessário para a produção dessas células.
Com base nestes resultados, os investigadores concluíram que, nos animais estudados, a bactéria Lactobacillus reuteri em conjunto com o aminoácido triptofano, são fundamentais para a produção de DP IELs.
A dependência completa de L. reuteri e dos respetivos metabolitos resultantes do metabolismo de triptofano para a produção de DP IELs, fornece uma base para a utilização de L. reuteri na forma de probiótico em conjunto com alimentos ricos em triptofano para o tratamento de condições que podem ser modificadas pelos DP IELs, tal como as doenças inflamatórias do intestino.
O triptofano é um aminoácido essencial, necessário para a síntese de proteínas, sendo precursor do neurotransmissor serotonina e da hormona melatonina. Este aminoácido encontra-se em alimentos como:
– Soja
– Sementes de abóbora
– Sementes de sésamo
– Aveia
– Gérmen de trigo
– Cajus
– Pistachos
– Feijão branco
– Feijão vermelho
– Leguminosas e frutos secos em geral.
Referências:
Referências:
1. Cervantes-Barragan L, Chai JN, Tianero MD, DiLuccia B, Ahern PP, Merriman J, et al. Lactobacillus reuteri induces gut intraepithelial CD4+CD8αα+ T cells. Science [Internet]. 2017 Aug 3 [cited 2018 Feb 16];eaah5825. Available from: http://science.sciencemag.org/content/early/2017/08/02/science.aah5825
