A diabetes é um problema de saúde global, com uma prevalência de 8,8% (425 milhões de adultos vivem com a doença em todo o mundo), sendo que tanto a incidência como a prevalência da doença estão a subir. Embora existam fatores de risco não modificáveis como a história familiar e a idade com um papel no desenvolvimento da doença, outros fatores como o estilo de vida, incluindo a dieta, têm um papel importante na mesma. Alterações de estilo de vida poderão diminuir o risco de diabetes e influenciar a progressão da doença (American Diabetes Association, 2002Paulweber et al., 2010Dyson et al., 2018).

Existe uma quantidade razoável de estudos que mostram que uma dieta ocidental, caracterizada por uma ingestão elevada de carne esteja associada a um risco superior de diabetes tipo 2 (DT2), mas pelo contrário dietas de base vegetal como a Mediterrânica ou a DASH, caracterizadas por uma ingestão elevada de produtos vegetais e pouca carne, estejam associadas a um risco inferior de DT2 (Schwingshackl et al., 2017Jannasch et al., 2017Schwingshackl et al., 2015). Para verificar se essas associações são consistentes, foi realizada uma meta-análise a 28 estudos prospetivos, na qual foram observados os seguintes resultados:

  • Uma ingestão superior de carne total (33%), carne vermelha (22%) e carne processada (25%) esteve associada a um risco superior de DT2;
  • Por cada 100g/dia de carne total e carne vermelha houve um risco 36% e 31% superior de DT2, respetivamente;
  • Por cada 50g/dia de carne processada houve um risco 46% superior de DT2.

O estudo concluiu que existe uma relação dose-dependente entre a ingestão de carne total, carne vermelha e carne processada e o risco de diabetes tipo 2 (Yang et al., 2020).

Anteriormente, vários estudos têm mostrado que o consumo de carne, em especial carne vermelha poderá contribuir para o risco de diabetes. Essa associação poderá ser mediada em parte no caso das carnes vermelhas e totalmente no caso das aves pela ingestão de ferro heme presente nessas carnes (Talaei et al., n.d.). Outro estudo que incluiu no total 149143 homens e mulheres a partir de 3 estudos prospetivos, mostrou que por cada ½ porção por dia de carne vermelha adicional, houve um risco 48% superior de DT2 (Pan et al., 2013).

Por outro lado, vários estudos sugerem que uma dieta de base vegetal está associada a uma diminuição do risco de diabetes. A análise conjunta a 3 estudos prospetivos com 200727 participantes no total mostrou que aqueles com índices de dieta de base vegetal superiores tiveram um risco inferior de diabetes tipo 2: diminuição de 20% no caso de PDI (dietas de base vegetal) e 34% no caso de hPDI (dietas de base vegetal saudáveis) (Satija et al., 2016).

Dentro das dietas de base vegetal, a dieta vegana parece ser aquela que mais diminui o risco da doença. Um estudo prospetivo com 41387 participantes mostrou que uma dieta ovo-lacto-vegetariana esteve associada a uma diminuição de 38% no risco de diabetes tipo 2 e uma dieta vegana esteve associada a um risco 62% inferior da doença (Tonstad et al., 2013).

Uma meta-análise a 9 estudos prospetivos com um total de 307099 participantes mostrou também que dietas de base vegetal estiveram associadas a um risco 23% inferior de diabetes tipo 2. Além disso, nos estudos em que se diferenciou dietas de base vegetal saudáveis (ricas em vegetais, frutos, cereais integrais, leguminosas e frutos secos) de dietas de base vegetal pouco saudáveis (ricas em farinhas refinadas e açúcares adicionados), houve uma diminuição de 30% no risco de diabetes tipo 2.  O estudo concluiu assim que dietas de base vegetal, especialmente aquelas que incluem alimentos saudáveis, poderão ser eficazes na prevenção de diabetes tipo2 (Qian et al., 2019).

Para procurar identificar os componentes da dieta mais fortemente associados com o risco de diabetes tipo 2, foi igualmente realizada uma revisão guarda chuva de revisões sistemáticas e meta-análises de estudos prospetivos que procurou avaliar a força da evidência dessas associações (Neuenschwander et al., 2019). Os alimentos mais associados a uma diminuição do risco de diabetes foram os cereais integrais e as fibras de cereais. Por outro lado aqueles que mais estiveram associados a um risco superior de diabetes foram a carne vemelha, processada, bacon e bebidas açucaradas. Por outro lado os padrões alimentares mais protetores foram por ordem decrescente a dieta vegetariana, dieta DASH e dieta Mediterrânica. Tanto uma dieta pouco saudável como uma dieta pobre em hidratos de carbono estiveram associados a um risco superior de diabetes (Neuenschwander et al., 2019).

Um estudo mais recente procurou identificar os perfis de metabolitos relacionados com diferentes dietas de base vegetal e as possíveis associações com o risco de diabetes tipo 2 (Wang et al., 2022). A identificação dos diferentes metabolitos (produtos finais resultantes dos processos celulares) presentes numa amostra biológica, conhecida como metabolómica, tem sido estudada como um meio de caracterizar o padrão alimentar de um indivíduo. Neste caso, foram analisadas amostras de sangue e os consumos alimentares de 10684 participantes de 3 estudos prospetivos. Os participantes preencheram questionários de frequência alimentar os quais foram classificados de acordo com a sua adesão a 3 dietas de base vegetal: Índice de Dieta de Base Vegetal (PDI), Índice de Dieta de Base Vegetal saudável (hPDI) e Índice de Dieta de Base Vegetal não-saudável (uPDI). Ao serem analisados os perfis de metabolitos juntamente com os índices foram observados os seguintes resultados:

  • As dietas de base vegetal estiveram associadas a perfis de metabolitos específicos, sendo estes diferentes entre dietas de base vegetal saudáveis e não-saudáveis;
  • Os perfis de metabolitos de dietas de base vegetal gerais e saudáveis estiveram associados a uma diminuição do risco de diabetes, de forma independente do peso (IMC) e outros fatores de risco;
  • Os metabolitos trigonelina, hipurato, isoleucina e alguns triacilgliceróis estiveram associados ao risco de diabetes.

O estudo concluiu que os perfis de metabolitos relacionados com dietas de base vegetal, especialmente dietas de base vegetal saudáveis, estiveram associados a um risco inferior de diabetes tipo 2 numa população saudável, o que sugere que dietas de base vegetal saudáveis podem ser benéficas na prevenção da doença (Wang et al., 2022).

Os metabolitos associados às dietas de base vegetal poderão explicar em parte os seus efeitos protetores. A trigonelina, por exemplo, encontra-se no café e parece ter efeitos benéficos na resistência à insulina em estudos em animais. Níveis elevados de hipurato estão associados a um melhor controlo glicémico, maior secreção de insulina e risco inferior de diabetes tipo 2.

Dietas de base vegetal, rica em cereais integrais, vegetais, frutos, sementes e frutos secos, com pouco ou nenhum consumo de carnes vermelhas e processadas e pouca gordura saturada parecem ser a forma eficaz de prevenir diabetes tipo 2.

Referências:

  1. American Diabetes Association. Evidence-based nutrition principles and recommendations for the treatment and prevention of diabetes and related complications. Diabetes Care. 2002 Jan;25(1):202–12.

2. Paulweber B, Valensi P, Lindström J, Lalic NM, Greaves CJ, McKee M, et al. A European evidence-based guideline for the prevention of type 2 diabetes. Horm Metab Res. 2010 Apr;42 Suppl 1:S3-36.

3. Dyson PA, Twenefour D, Breen C, Duncan A, Elvin E, Goff L, et al. Diabetes UK evidence-based nutrition guidelines for the prevention and management of diabetes. Diabet Med. 2018;35(5):541–7.

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5. Jannasch F, Kröger J, Schulze MB. Dietary Patterns and Type 2 Diabetes: A Systematic Literature Review and Meta-Analysis of Prospective Studies. J Nutr. 2017;147(6):1174–82.

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