Dietas de base vegetal, especialmente vegetarianas e veganas, estão associadas a um risco inferior de cancro.

Com base nos dados existentes a partir de estudos que mostram as variações internacionais na incidência de cancro, variações no risco de cancro em grupos migratórios, estudos prospetivos de coorte e redução do risco de cancros relacionado com o tabagismo depois de deixar de fumar, estima-se hoje que entre 50 a 60% das mortes de cancro podem ser prevenidas, estando relacionadas com causas modificáveis, tais como fumar, obesidade, dieta e exercício físico (Colditz et al., 2006Colditz GA & Sutcliffe S, 2016Song M & Giovannucci E, 2016).

Outros estudos sugerem que diferenças no estilo de vida poderiam explicar a diferença de cerca de 40-70% nos casos de cancro da mesma população (Song M & Giovannucci E, 2016). Independentemente dos números exatos, sabe-se hoje que uma boa parte dos casos de cancro podem ser prevenidos e existem um conjunto de recomendações de estilo de vida para esse fim. Uma dessas recomendações passa por aumentar a ingestão de produtos vegetais e diminuir a ingestão de carne vermelha e processada (World Cancer Research Fund International & American Institute for Cancer Research, 2018Clinton et al., 2020).

Nesse sentido, dietas de base vegetal como as vegetarianas ou as veganas poderão estar associada a um risco inferior de cancro. Existem dois grandes estudos prospetivos que avaliam os efeitos para a saúde das dietas de base vegetal (incluindo veganas): o European Prospective Investigation into Cancer and Nutrition (EPIC), na Europa e o Adventist Health Study 2 (AHS-2), a decorrer nos EUA. Em ambos os estudos observa-se uma diminuição do risco de cancro entre os vegetarianos e veganos (além daqueles que comem peixe) comparativamente com aqueles que comem carne (Key et al., 2014Tantamango-Bartley et al., 2013).

No Adventist Health Study 2, um estudo prospetivo com 69120 participantes, houve uma diminuição de 8% no risco de cancro entre os vegetarianos e uma diminuição de 16% entre os veganos. Mais especificamente, uma dieta vegana esteve associada a um risco 34% inferior de cancro femininos e 35% inferior de cancro da próstata (Tantamango-Bartley et al., 2013Tantamango-Bartley et al., 2016). De forma semelhante, no caso do estudo EPIC, um estudo prospetivo com 61647 participantes, houve uma diminuição de 11% no risco de cancro entre os vegetarianos e 19% entre os veganos. Além disso, os pescetarianos (dieta de base vegetal com a inclusão de peixe) tiveram um risco 12% inferior de cancro (Key et al., 2014). Também uma meta-análise a 86 estudos transversais e 10 estudos prospetivos verificou que uma dieta vegetariana esteve associada a um risco 8% inferior de cancro e uma dieta vegana esteve associada a uma diminuição de 15% no risco de cancro (Dinu et al., 2016).

Mais recentemente, um estudo prospetivo com 472377 participantes procurou identificar associações entre dietas vegetarianas e não-vegetarianas e o risco de cancro total, colorretal, da mama e da próstata. Para isso foram criadas 4 categorias: dietas com carne (> 5 vezes por semana), dietas com pouca carne (<5 vezes por semana), dietas com peixe e dietas vegetarianas (incluindo veganas) (Watling et al., 2022). Ao fim de 11,4 anos foram observados os seguintes resultados:

  • Dietas com pouca carne (<5 vezes por semana) estiveram associadas a um risco 2% inferior de cancro e a um risco 9% inferior de cancro colorretal;
  • Dietas com peixe e sem carne estiveram associadas a um risco 10% inferior de cancro e a um risco 20% inferior de cancro da próstata (homens);
  • Dietas vegetarianas e veganas estiveram associada a um risco 14% inferior de cancro e a um risco 31% inferior de cancro da próstata (homens);
  • Mulheres vegetarianas tiveram um risco 18% inferior de cancro da mama na pós-menopausa, mas essa diminuição poderá estar relacionada com o facto destas mulheres terem um IMC inferior.

Estes resultados são consistentes com estudos anteriores que sugerem uma associação entre a ingestão de carne e um risco maior de cancro. Para este estudo foram controlados vários possíveis confundidores como atividade física, tabagismo, ingestão de álcool, peso, entre outros. Nesse sentido, embora não seja possível estabelecer uma relação absoluta de causalidade, os dados que existem sugerem fortemente que uma dieta vegetariana ou vegana poderá ser eficaz na diminuição do risco de cancro. Dietas de base vegetal, que sejam vegetarianas ou não, são uma das melhores medidas para diminuir o risco de doenças crónicas e promover a saúde humana e planetária.

Referências:

1. Colditz GA, Sellers TA, Trapido E. Epidemiology – identifying the causes and preventability of cancer? Nat Rev Cancer. 2006 Jan;6(1):75–83.

2. Colditz GA, Sutcliffe S. The preventability of cancer: Stacking the deck. JAMA Oncol [Internet]. 2016 May 19 [cited 2016 Jun 9]; Available from: http://dx.doi.org/10.1001/jamaoncol.2016.0889

3. Song M, Giovannucci E. PReventable incidence and mortality of carcinoma associated with lifestyle factors among white adults in the united states. JAMA Oncol [Internet]. 2016 May 19 [cited 2016 Jun 22]; Available from: http://dx.doi.org/10.1001/jamaoncol.2016.0843

4. World Cancer Research Fund International, American Institute for Cancer Research, editors. Diet, nutrition, physical activity and cancer: a global perspective: a summary of the Third expert report. London: World Cancer Research Fund International; 2018. 112 p.

5. Clinton SK, Giovannucci EL, Hursting SD. The World Cancer Research Fund/American Institute for Cancer Research Third Expert Report on Diet, Nutrition, Physical Activity, and Cancer: Impact and Future Directions. J Nutr [Internet]. 2020 Apr 1 [cited 2020 Oct 24];150(4):663–71. Available from: https://academic.oup.com/jn/article/150/4/663/5638292

6. Key TJ, Appleby PN, Crowe FL, Bradbury KE, Schmidt JA, Travis RC. Cancer in British vegetarians: updated analyses of 4998 incident cancers in a cohort of 32,491 meat eaters, 8612 fish eaters, 18,298 vegetarians, and 2246 vegans. Am J Clin Nutr [Internet]. 2014 Jul 1 [cited 2015 Jun 11];ajcn.071266. Available from: http://ajcn.nutrition.org/content/early/2014/06/04/ajcn.113.071266

7. Tantamango-Bartley Y, Jaceldo-Siegl K, Fan J, Fraser G. Vegetarian Diets and the Incidence of Cancer in a Low-risk Population. Cancer Epidemiol Biomarkers Prev [Internet]. 2013 Feb 1 [cited 2014 Dec 30];22(2):286–94. Available from: http://cebp.aacrjournals.org/content/22/2/286

8. Tantamango-Bartley Y, Knutsen SF, Knutsen R, Jacobsen BK, Fan J, Beeson WL, et al. Are strict vegetarians protected against prostate cancer? Am J Clin Nutr [Internet]. 2016 Jan 1 [cited 2016 Jan 13];103(1):153–60. Available from: http://ajcn.nutrition.org/content/103/1/153

9. Dinu M, Abbate R, Gensini GF, Casini A, Sofi F. Vegetarian, vegan diets and multiple health outcomes: a systematic review with meta-analysis of observational studies. Critical Reviews in Food Science and Nutrition [Internet]. 2016 Feb 6 [cited 2016 Feb 10];0(ja):00–00. Available from: http://dx.doi.org/10.1080/10408398.2016.1138447

10. Watling CZ, Schmidt JA, Dunneram Y, Tong TYN, Kelly RK, Knuppel A, et al. Risk of cancer in regular and low meat-eaters, fish-eaters, and vegetarians: a prospective analysis of UK Biobank participants. BMC Medicine [Internet]. 2022 fevereiro [cited 2022 Feb 27];20(1):73. Available from: https://doi.org/10.1186/s12916-022-02256-w