A quimioterapia pode promover o crescimento do tumor
Cada vez mais a investigação sobre o cancro se centra na importância do microambiente do qual depende para se desenvolver. De facto, um tumor tem inevitáveis dependências das condições que o rodeiam para se desenvolver. Um tumor tem necessidades energéticas como qualquer célula e embora o seu funcionamento biológico se tenha desviado de um comportamento altruista para outro individualista, continua a depender do ambiente onde está inserido para atingir os seus objetivos de crescimento e expansão descontrolada. Desse modo precisa de fatores de crescimento para proliferar, de uma rede de abastecimento para obter combustível para as suas sagazes necessidades energéticas, precisa de manter a inflamação local que lhe provê o festim de moléculas e sinalizações químicas que permitem estes mecanismos acontecerem.
Algumas das estratégias atuais em investigação de combate ao cancro passa por interferir com os vários mecanismos biológicos dos quais o cancro depende para se desenvolver. Estrategicamente passa por flanquear o inimigo e isolá-lo até o destruir. Esta abordagem reconhece o valor da alimentação por ser um meio de fazer chegar poderosas moléculas presentes nos alimentos (predominantemente de origem vegetal) que em conjunto afetam grande parte dessas vias bioquímicas sem comprometer as células saudáveis. Um tratamento ideal seria aquele que conseguisse afetar as células de cancro sem afetar as saudáveis, ao mesmo tempo que modificasse as condições do microambiente de forma a dificultar ao máximo o crescimento dessas células, enquanto reforçasse as defesas naturais do organismo para combater a doença. Este cenário ideal encontra-se ainda por concretizar. Na realidade, algumas vezes o que temos hoje disponível para tratar o cancro parece comportar-se exatamente ao contrário deste ideal.
Um estudo recente sugere que a quimioterapia utilizada para tratar o cancro poderá criar condições no microambiente para que este se desenvolva. Quando esta equipa de investigação liderada por Peter S. Nelson examinou células de cancro da próstata, mama e ovário de pacientes tratados com quimioterapia, observou que quando o ADN de fibroblastos (células constituintes do tecido conjuntivo) presentes no local do tumor é danificado pela quimioterapia, estes produzem uma proteína chamada WNT16B . Quando a proteína chega a níveis de concentração elevados promove o crescimento das células de cancro, facilita a invasão dos tecidos circundantes e ajuda essas células a resistir à quimioterapia.
O conhecimento deste mecanismo, além de reforçar a importância que tem o meio ambiente do tumor para o seu desenvolvimento, é visto por estes investigadores como um acontecimento positivo. Segundo os mesmos, “este estudo confirma que as células saudáveis que rodeiam o tumor podem ajudá-lo a tornar-se resistente ao tratamento. O próximo passo será encontrar maneiras de modificar estes mecanismos de resistência para ajudar a tornar a quimioterapia mais eficaz“. Outro dos passos será encontrar um tratamento mais eficaz e que não provoque o problema que tenta solucionar. O desafio será “encontrar maneiras de modificar os mecanismos de resistência” que dificultam essa descoberta.
Referências:
https://www.nature.com/nm/journal/vaop/ncurrent/abs/nm.2890.html
