Pílulas contracetivas e risco de cancro

Publicidade a contracetivos orais de 1963

Introduzida nos anos 60 do século passado, a pílula contracetiva tornou-se o meio mais comum de controlo de natalidade indesejada. No entanto, e embora seja muito eficaz para esse fim, traz consigo também outros problemas indesejados. Longe de ser um medicamento isento de riscos, um dos seus problemas mais significativos poderá ser o o facto de algumas destas pílulas estarem associadas a um aumento de risco de cancro da mama. A situação não é linear. Se por um lado parecem aumentar o risco de cancro da mama, do colo do útero e do fígado, poderão ser protetoras em relação ao cancro do ovário e do endométrio.

As pílulas são geralmente compostas de estrogénio e progesterona em diferentes concentrações, consoante o tipo. O facto de terem na sua composição estrogénio tem levantado preocupações, uma vez que esta hormona está relacionada com o risco de alguns cancros, como o da mama. Os resultados de estudos epidemiológicos que examinam a relação entre o uso de contracetivos orais e o risco de cancro nem sempre têm sido consistentes, mas existem vários indicadores que sugerem uma relação de risco.

Cancro da mama

Uma meta-análise a mais de 50 estudos em todo o mundo realizada em 1996 concluiu que mulheres que eram utilizadoras regulares ou recentes de pílulas contracetivas  tinham um risco ligeiramente superior de desenvolver cancro da mama, quando comparadas com mulheres que nunca usaram a pílula. O risco era superior em mulheres que começaram a usar os contracetivos durante a adolescência. No entanto, 10 ou mais anos depois de interromper a utilização, o risco de cancro da mama dessas mulheres voltou a um nível semelhante a nunca terem tomado a pílula.

O estudo Nurses’ Health Study, o qual tem seguido mais de 116000 enfermeiras com idades compreendidas entre os 24 e os 43 anos de idade desde 1989, conclui igualmente que as mulheres que usaram contracetivos orais mostraram um aumento no risco de cancro da mama. No entanto, a maior parte desse risco foi observado nas mulheres que tomaram um tipo específico de contracetivo oral, a chamada pílula trifásica.

Mais recentemente, um novo estudo sugere que a utilização de certos contracetivos orais pode estar associado a um risco 50% superior de cancro da mama. Ao contrário dos estudos anteriores que dependiam das informações dadas pelas próprias mulheres participantes, este novo estudo analisou o registo eletrónico de farmácias, comparando 1102 mulheres diagnosticadas com cancro da mama com 21952 que serviram de controlo.

O risco de cancro da mama varia em função do tipo de pílula utilizada:

  • Pílulas com uma dose elevada de estrogénio (50 microgramas ou mais), aumentaram o risco de cancro da mama 2,7 vezes;
  • Pílulas com uma dose média de estrogénio (30 a 35 microgramas) aumentarm o risco 1,6 vezes;
  • Pílulas que contêm diacetato de etinodiol aumentaram o risco 2,6 vezes;
  • Pílulas trifásicas que contêm uma média de 0,75 miligramas de noretindrona aumentaram o risco 3,1 vezes;
  • Pílulas com doses baixas de estrogénio (20 miligramas) não aumentaram o risco de cancro da mama.

Cancro do ovário

O uso de contracetivos orais está associado a uma redução no risco de cancro do ovário. Em 1992uma meta-análise 20 estudos descobriu que quanto mais longa a utilização de contracetivos orais, mais o risco de cancro do ovário diminuiu. O risco diminui cerca de 10 a 12% depois de 1 ano de utilização e 50% depois de 5 anos de utilização.

Uma análise recente ao estudo Cancer and Steroid Hormone (CASH), sugere que os contracetivos com níveis elevados de progestina estão associados a um risco inferior de cancro do ovário, quando comparados com fórmulas que utilizem níveis baixos de progestina.

Um estudo de 2009 descobriu que mulheres com mutações no gene BRCA1, um fator de risco para cancro da mama e do ovário, quando tomaram contracetivos orais tiveram cerca de metade do risco de cancro do ovário, comparando com mulheres que não tomaram contracetivos.

Cancro do endométrio

Estudos sugerem que mulheres que utilizam contracetivos orais têm um risco inferior de cancro do endométrio. Este efeito protetor aumenta em função do tempo de utilização e continua por vários anos mesmo depois da interrupção na utilização.

Cancro do colo do útero

utilização a longo prazo de contracetivos orais (5 anos ou mais) está associada a um risco superior de cancro do colo do útero. Uma meta-análise 24 estudos epidemiológicos descobriu que quanto mais tempo uma mulher utilizou contracetivos, maior o risco desse cancro. Por outro lado, para aquelas que interromperam a utilização de contracetivos, o risco tendeu a diminuir ao longo do tempo, indepentemente do tempo de utilização antes de interromperem.

Um relatório de 2002 da IARC, dá-nos conta que mulheres que utilizaram contracetivos durante 5 a 9 anos, apresentaram um risco quase 3 vezes superior de cancro do colo do útero, quando comparadas com mulheres que nunca os utilizaram. As mulheres que utilizaram contracetivos durante 10 ou mais anos, mostraram um risco 4 vezes superior.

Cancro do fígado

A utilização de contracetivos orais está associada a um aumento no risco de tumores benignos do fígado, tal como adenomas hepatocelulares. No entanto, raramente estes tumores tornam-se malignos.

Existem várias pílulas no mercado, com diferentes composições, pelo que a escolha deverá ser bem informada e medicamente assistida. Nas seguintes tabelas poderá comparar as características de algumas das marcas mais utilizadas.

(Fonte das tabelas: https://pt.121doc.net/pilula-adequada.html#ixzz3By29qh7F)

Referências:

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/15105794

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https://cancerres.aacrjournals.org/content/74/15/4078

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https://www.fhcrc.org/en/news/center-news/2014/08/Some-new-birth-control-raise-breast-cancer-risk.html

https://www.cancer.gov/cancertopics/factsheet/Risk/oral-contraceptives