Dietas de base vegetal poderão diminuir o risco de hipertensão.

hipertensão é um dos principais e mais comuns fatores de risco de morte em todo o mundo, afetando cerca de 1,4 mil milhões de pessoas, estando associada ao risco de doenças cardiovasculares, doenças renais e morte (Mills et al., 2016). Em Portugal, estima-se que cerca de 36% da população seja hipertensa, com os valores mais elevados observados no sexo masculino e no grupo etário dos 65 aos 64 anos (Rodrigues et al., 2017).

A importância do estilo de vida na prevenção de hipertensão parece ser fundamental. Perder peso e fazer exercício são algumas das medidas importantes para controlar a hipertensão, no entanto uma dieta de base vegetal poderá ser ainda mais eficaz (Appel et al., 1997Steffen et al., 2005). Um dos primeiros estudos a sugerir uma associação entre uma dieta de base vegetal e um risco inferior de hipertensão foi publicado em 1930. Nesse estudo, monges alemães com dietas vegetarianas pareciam ter um risco inferior de pressão arterial elevada, comparativamente com aqueles que comiam carne (Joshi et al., 2020).

Desde então vários outros estudos têm mostrado uma associação entre dietas de base vegetal e o risco de hipertensão. Uma recente meta-análise procurou saber se diferentes tipos de dietas de base vegetal, mesmo incluindo alguns produtos animais, poderão diminuir o risco de hipertensão (Gibbs et al., 2020). Na revisão foram incluídos 41 estudos clínicos com 8416 participantes nos quais foram analisados os efeitos de sete diferentes dietas de base vegetal: DASH, Mediterrânica, Vegetariana, Vegana, Nórdica, rica em frutos e vegetais e rica em fibra). Todas as dietas estiveram associadas a uma diminuição da pressão arterial:

  • DASH: -5,53 mmHg;
  • Vegetariana: -5,47 mmHg;
  • Nórdica: -4,47 mmHg;
  • Vegana: -1,30 mmHg;
  • Mediterrânica: -0,95 mmHg;
  • Rica em fibra: -0,65 mmHg;
  • Rica em frutos e vegetais: -0,57 mmHg.

O estudo concluiu que qualquer dieta de base vegetal, sem ou com produtos animais em pequenas quantidades, poderá diminuir o risco de hipertensão (Gibbs et al., 2020). Uma diminuição de pressão arterial da ordem do que se observa com dietas de base vegetal poderia resultar numa diminuição de 14% no risco de AVC, 9% no risco de ataques cardíacos e 7% no risco de mortalidade.

A dieta DASH (Dietary Approaches to Stop Hypertension) consiste numa dieta rica em vegetais, frutos, cereais integrais, frutos secos e pobre em gorduras saturadas, e foi desenvolvida para tratar e prevenir a hipertensão. Vários estudos têm mostrado ser eficaz a diminuir a pressão arterial (Appel et al., 1997). O estudo CARDIA acompanhou 5115 pessoas com idades entre os 18 e os 30 anos ao longo de 15 anos, tendo mostrado que aqueles que consumiram mais produtos de origem vegetal incluindo frutos, cereais integrais, leguminosas e frutos secos, tiveram uma redução de até 36% na pressão arterial (Steffen et al., 2005). Outro estudo prospetivo com 1546 participantes acompanhados ao longo de 3 anos mostrou que aqueles que fizeram um consumo superior de alimentos ricos em fitoquímicos tiveram um risco 48% inferior de hipertensão. Por outro lado, o consumo de carne vermelha e processada esteve associado a uma tensão arterial mais elevada (Golzarand et al., 2015).

Um estudo prospetivo que incluiu 188518 participantes mostrou que a ingestão de 1 porção por dia de qualquer tipo de carne esteve associado a um aumento de 30% no risco de hipertensão, especialmente no caso de carne vermelha, mas também de carne branca (22%) e em menor grau de peixe (5%) (Borgi et al., 2015).

A forma como a carne é confecionada poderá também contribuir para o risco de hipertensão. Alguns estudos sugerem que cozinhar carne com temperaturas elevadas ou diretamente sobre a chama poderá contribuir para o risco de diabetes tipos 2 e hipertensão, independentemente da quantidade de carne ingerida. Um estudo com 93881 participantes, sugere que ingerir carne ou peixe grelhados ou bem passados poderá aumentar o risco de hipertensão entre aqueles que consomem esses alimentos regularmente (Liu, 2018). Alguns resultados:

  • Consumir mais do que 15 vezes por mês carne vermelha, aves ou peixe cozinhados com temperaturas elevadas ou diretamente sobre a chama, esteve associado a um risco 17% superior de hipertensão, comparativamente com menos do 4 vezes por mês;
  • O consumo superior de carne, peixe ou aves bem passados esteve associado a um risco 15% superior de hipertensão;
  • A ingestão superior de aminas heterocíclicas esteve associada a um risco 17% superior de hipertensão.

Outro fator de risco de hipertensão importante poderá também ser a ingestão de bebidas alcoólicas, mesmo com moderação. Um estudo prospetivo que incluiu 17059 participantes acompanhados ao longo de mais de 20 anos, sugere que mesmo em moderação (1 a 2 bebidas por dia), o consumo de bebidas alcoólicas poderá aumentar o risco de hipertensão. Comparativamente com aqueles que não bebiam, consumidores moderados de álcool tiveram um risco 53% superior de hipertensão de estágio 1 e um risco 2 vezes superior de hipertensão de estágio 2. No caso daqueles que bebiam mais do que 2 bebidas por dia, o risco de hipertensão de estágio 1 foi 69% superior enquanto o risco de hipertensão de estágio 2 foi 2,4 vezes superior. Em média, a pressão arterial era de 109/67 mmHg entre aqueles que nunca bebiam bebidas alcoólicas, 128/79 mmHg entre aqueles que bebiam com moderação e 153/82 mmHg entre aqueles que bebiam mais.

Por outro lado, um estudo que envolveu 11004 participantes (EPIC), mostrou que entre os grupos de omnívoros, pescetarianos, vegetarianos e veganos, os omnívoros tinham uma maior prevalência de hipertensão e os veganos eram os que tinham uma menor prevalência. Essas diferenças podem ser atribuídas à diferença de peso entre os grupos (Appleby et al., 2002).

Uma meta-análise a 7 estudos clínicos e 32 estudos observacionais mostrou que uma dieta vegetariana esteve associada a uma pressão arterial inferior comparativamente com uma dieta omnívora (Yokoyama et al., 2014).

Um estudo prospetivo com 500 participantes mostrou que, comparativamente com omnívoros com uma alimentação saudável, ovo-lacto-vegetarianos e veganos tiveram um risco 43% e 63% inferior de hipertensão, respetivamente (Pettersen et al., 2012).

Outro estudo de coorte com 4109 participantes acompanhados ao longo de 1,61 anos mostrou que aqueles que eram vegetarianos tiveram um risco 34% inferior de hipertensão. Esses efeitos foram observados de forma independente do peso, inflamação e resistência à insulina (Chuang et al., 2016).

Também de acordo com o estudo prospetivo Adventist Health Study 2, comparativamente com omnívoros, os veganos tiveram um risco 75% inferior de hipertensão e os vegetarianos tiveram um risco 55% inferior de hipertensão (Fraser, 2009).

hipertensão é um fator de risco muito importante associado à mortalidade em todo o mundo, sendo que uma dieta de base vegetal poderá ser uma forma eficaz de a prevenir ou tratar. De facto a dieta não só é um fator de risco importante para hipertensão, como é ainda mais determinante para o risco de mortalidade. De acordo com um estudo que decorre há 27 anos (Global Burden of Disease), o qual analisa as causas de morte em 195 países e territórios, comer mal mata mais do que todos os outros fatores de risco como o tabaco ou a hipertensão, sendo que 1 em cada 5 mortes em todo o mundo está relacionada com uma dieta desequilibrada (Afshin et al., 2019). Os 3 principais fatores de risco alimentares responsáveis por essas mortes globalmente são: 1) demasiado sal (3 milhões de mortes); 2) insuficientes cereais integrais (3 milhões de mortes); 3) insuficiente fruta (2 milhões de mortes). Além disso, outros fatores importantes foram os níveis insuficientes de frutos secos, sementes, vegetais, ómega-3 e fibra.

Para a hipertensão, mas também para todos os outros problemas de saúde, e também para o ambiente, uma dieta de base vegetal de qualidade é a melhor medida que podemos tomar.

Referências:

1. Mills KT, Bundy JD, Kelly TN, Reed JE, Kearney PM, Reynolds K, et al. Global Disparities of Hypertension Prevalence and Control: A Systematic Analysis of Population-based Studies from 90 Countries. Circulation [Internet]. 2016 Aug 9 [cited 2020 Aug 4];134(6):441–50. Available from: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4979614/

2. Rodrigues AP, Gaio V, Kislaya I, Graff-Iversen S, Cordeiro E, Silva AC, et al. Prevalência de hipertensão arterial em Portugal: resultados do Primeiro Inquérito Nacional com Exame Físico (INSEF 2015). Hypertension prevalence in Portugal:  results from the first Portuguese Health Examination Survey 2015 [Internet]. 2017 Jul 27 [cited 2020 Aug 4];9(Supl 9):11–4. Available from: http://repositorio.insa.pt/handle/10400.18/4760

3. Appel LJ, Moore TJ, Obarzanek E, Vollmer WM, Svetkey LP, Sacks FM, et al. A clinical trial of the effects of dietary patterns on blood pressure. DASH Collaborative Research Group. N Engl J Med. 1997 Apr 17;336(16):1117–24.

4. Steffen LM, Kroenke CH, Yu X, Pereira MA, Slattery ML, Van Horn L, et al. Associations of plant food, dairy product, and meat intakes with 15-y incidence of elevated blood pressure in young black and white adults: the Coronary Artery Risk Development in Young Adults (CARDIA) Study. Am J Clin Nutr. 2005 Dec;82(6):1169–77; quiz 1363–4.

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6. Gibbs J, Gaskin E, Ji C, Miller MA, Cappuccio FP. The effect of plant-based dietary patterns on blood pressure: a systematic review and meta-analysis of controlled intervention trials. Journal of Hypertension [Internet]. 2020 Jul 24 [cited 2020 Aug 3];Publish Ahead of Print. Available from: https://journals.lww.com/jhypertension/Abstract/9000/The_effect_of_plant_based_dietary_patterns_on.96871.aspx

7. Golzarand M, Bahadoran Z, Mirmiran P, Sadeghian-Sharif S, Azizi F. Dietary phytochemical index is inversely associated with the occurrence of hypertension in adults: a 3-year follow-up (the Tehran Lipid and Glucose Study). Eur J Clin Nutr. 2015 Mar;69(3):392–8.

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14. Fraser GE. Vegetarian diets: what do we know of their effects on common chronic diseases?1234. Am J Clin Nutr [Internet]. 2009 May [cited 2018 Oct 10];89(5):1607S-1612S. Available from: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC2677008/

15. Afshin A, Sur PJ, Fay KA, Cornaby L, Ferrara G, Salama JS, et al. Health effects of dietary risks in 195 countries, 1990–2017: a systematic analysis for the Global Burden of Disease Study 2017. The Lancet [Internet]. 2019 Apr 3 [cited 2019 Apr 10];0(0). Available from: https://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140-6736(19)30041-8/abstract